sábado, 19 de setembro de 2026

A palavra que resta, de Stênio Gardel

"A palavra que resta", romance de estreia do cearense Stênio Gardel, aclamado pela crítica, é realmente impactante. O livro é pequeno, para se ler de uma vez num fim de semana. O enredo narra a história de um homem que trabalhou na lida da roça e depois como praça - descarregador de caminhões, rodando por todo Brasil com caminhoneiros. Até que aos 71 anos, resolve aprender a ler, para ler uma carta deixada por Cícero, seu melhor amigo de infância e seu único amor, ainda na juventude, quando foram descobertos. Ao ter que enfrentar sua homossexualidade na roça, Raimundo (Gaudêncio para Cícero) sofre violência do pai, e preconceito, tendo sido expulso de casa pela mãe. A partir daí, viveu a vida entre caminhoneiros, escondendo e reprimindo sua sexualidade, até que eventos desconcertantes levam-o em busca de novos caminhos e à leitura da carta. A história é contada em flashes fragmentados... O livro venceu o prestigiado National Book Award (EUA) na categoria de Literatura Traduzida em 2023 (The Words That Remain, por Bruna Dantas Lobato). 

Raquel Teles Yehezkel, 20.08.2026



A ilha das árvores perdidas: destaques

"A ilha das árvores perdidas", de Elif Shafak, turca-britânica, doutora em política e línguas, conta a história de amor entre um casal misto (Dephne e Kostas) na Ilha de Chipre, separados pela guerra civil que dividiu a ilha em 1974 entre cipriotoas turcos ao norte e cipriotoas gregos ao sul, matando e desalojando milhares de pessoas. Vinte e cinco anos depois, o casal se reencontra em Nicósia, e vai morar em Londres, onde ele já é renomado cientista em ciências naturais; ela tbm é cientista, especializada em estudos arqueológicos de corpos desaparecidos na guerra em Chipre. Vão levando a semente de vida, uma filha, que nascerá em Londres, e, na mala, o galho de uma uma figueira, que presenciou toda a história, para ser replantada em Londres. 

O tema do romance é atual e relevante, e pode ser transposto para outros conflitos e diásporas, pessoais ou coletivas. A narrativa é moderna, com base em dados históricos e científicos, e com vozes diversas que se alternam no espaço e no tempo da narrativa. A figueira é uma das testemunhas que toma parte dessa narrativa poética e surpreendente. 

Destaco alguns trechos que vale a leitura!!!

"... Desde então, não voltei ao Chipre.

No entanto, ainda carrego a ilha comigo. O lugar onde nascemos molda nossa vida, mesmo quando estamos longe dele. Especialmente nesse caso (...)

"As pessoas acham que e questão de personalidade, a diferença entre otimistas e pessimistas. Mas eu acredito que tudo se resume a uma incapacidade de esquecer. Quando maior a capacidade de retenção, menores serão as chances de ser otimista. (...)

"Uma memória duradoura é uma maldição. Quando as idosas cipriotoas desejam o mal a alguém, não pede que nada de flagrante ruim lhe aconteça. Não rezam por raios, acidentes imprevistos ou súbitos revezes do destino. Elas simplesmente dizem: "Que você nunca consiga esquecer. Que você vá para o túmulo ainda se lembrando."

"Então acho que está em meus genes essa melancolia da qual nunca consigo me livrar por completo. Entalhada com uma faca invisível em minha pelearborescente." (a figueira: p.42-43)

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Sobre o início e o fim da vida - idade, ascendências e descendências:

"Para que eu sobrevivesse à longa viagem de Nicósia a Londres, Kostas me embrulhou cuidadosamente em camadas de tecido úmido antes de me enfiar no fundo da mala. (...)

"Gostei do meu novo lar em Londres e me esforcei para me adaptar, para me sentir em casa. De tempos em tempos, sentia falta das minhas vespas-do-figo, mas felizmente, nos últimos milhares de anos de evolução, surgiram figueiras partenocárpicas, que não precisam de polinização, e eu sou uma delas. Apesar disso, levei sete anos para voltar a dar frutos. Porque é isso que as migrações e os deslocamentos fazem conosco: quando deixa a casa rumo a terras desconhecidas, você não continua simplesmente vivendo como antes; uma parte de você morre por dentro para que outra parte possa começar tudo de novo. 

"Hoje, quando algumas árvores me perguntam quantos anos tenho, acho difícil dar uma resposta precisa. Tinha noventa e seis anos da última vez que lembro de mim mesma em uma taberna no Chipre. Eu, que cresci de uma estaca plantada na Inglaterra, agora tenho pouco mais de dezesseis anos. 

"É preciso sempre calcular a idade de alguém somando os meses e anos por meio de uma aritmética simples e direta - ou há casos em que na verdade é mais sensato compensar as passagens do tempo para chegar ao número correto? E quanto aos nossos ancestrais - eles também podem continuar existindo através de nós? Será que é por isso que, ao conhecer alguns indivíduos - assim como acontece com algumas árvores -, você tem a impressão de que eles são muito mais velhos do que a idade cronológica? 

"Onde começa a história de alguém quando toda vida tem mais de um fio e o que chamamos de nascimento não é o único começo, nem a morte é exatamente o fim?" (a figueira: p.64-65) 

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A ilha como metáfora da turbulência na vida de povos, famílias, pessoas:

"Certa vez, ouvi Defne dizer a Kostas: "Pessoas que vêm de ilhas turbulentas nunca podem ser normais. Podemos fingir, podemos até fazer um progresso incrível, mas nunca aprenderemos de fato a nós sentir seguros. O solo que para os outros parece duro como pedra são águas agitadas para os da nossa espécie" (a figueira: p.74)"

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Sobre pequenas dores em tempos de grandes dores: 

"Kostas sentiu uma solidão tão intensa que era quase tangível. Depois daquele dia, não falaria mais sobre [a morte] morcegos frugívoros e sobre como eles eram importantes para as árvores do Chipre e, portanto, para os habitantes de lá. Em uma terra assolada por conflitos, incertezas e derramamento de sangue, se você prestasse muita atenção a qualquer coisa que não fosse o sofrimento humano, as pessoas tomavam isso como indiferença, como um insulto à dor delas. Não era a hora nem o lugar apropriados para falar sobre plantas e animais, a natureza em todas as suas formas e em todo o seu esplendor, e foi assim que Kostas Kazantzakis foi aos poucos se fechando, esculpindo para si mesmo uma ilha dentro de outra ilha, isolando-se no silêncio (p.150)."

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Sobre a guerra, o amor e a esperança:

"Você não se apaixona no meio de uma guerra civil, quando ao redor há carnificina e ódio d e todos os lados. Você foge, tão rapidamente quanto suas pernas são capazes de carregar seus medos, em busca da sobrevivência mais básica e nada além disso. Com asas emprestadas, ganha o céu e voa para longe. E se não puder ir embora, então procura um abrigo, encontra um lugar seguro onde possa se refugiar, porque agora que tudo o mais fracassou, todas as negociações diplomáticas e consultas políticas, você sabe que só resta o olho por olho, dente por dente, e nenhum lugar fora da própria tribo é seguro. 

"O amor é uma afirmação ousada de esperança. Você não abraça a esperança quando a morte e a destruição estão no comando. Não coloca o melhor vestido e uma flor no cabelo quando em volta há apenas ruínas e caos. Não entrega o coração em um momento em que corações deveriam permanecer selados, especialmente a pessoas que não sejam da sua religião, nem da sua língua, nem do seu sangue. 

"Vice não se apaixona no Chipre durante o verão de 1974. Não ali, não naquele momento. E, no entanto, lá estavam os dois (p.168-169)."

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As borboletas "Vanessa cardui" como metáfora da migração humana: 

"Nossa ilha, com árvores em flor e exuberantes pradarias, era o lugar ideal para descansar e recuperar as energias na perspectiva da borboleta. Depois de deixar Chipre, ela retomaria o voo para a Europa, de onde nunca voltaria, embora um dia os descendentes dela o fizessem. Os filhos dela fariam a viagem inversa, e os filhos dos filhos dela fariam o mesmo caminho de volta, é assim continuaria essa migração geracional no qual o que importava não era o destino final, mas estar em movimento, buscando, mudando, transformando-se (p.261-262)."

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Conversa da tia, em Chipre, com a sobrinha Ada, em Londres: 

"(...) - Sabia que, no próximo verão, depois da Cúpula da Terra, meu pai prometeu me levar para o Chipre?

(...) - Mas, espere, qual lado você vai visitar? Quer dizer, não há mal nenhum em ver os dois lados, mas qual vai ser o primeiro? Norte ou sul? 

- Eu vou para a ilha - contou Ada, com um novo tom na voz. - Só quero conhecer ilhéus, como eu (p 334)."

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Raquel Teles Yehezkel   09/09/2026

In: Shafak, Elif. in A ilha das árvores perdidas. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2023.